Ontem a 54ª edição do Grammy foi transmitida pela TNT e eu madruguei de pijaminha e travesseiro no sofá, babando nos meus ídolos, nas apresentações estonteantes e nas aulinhas gratuitas de História da música contemporânea. Um fato que me chamou atenção foi a aceitação incondicional que (aparentemente) existia entre todos os músicos presentes. Sentados lado a lado, aplaudindo com igual empolgação a performance de todos os colegas, sorrindo de orelha a orelha ao ouvirem os discursos emocionados dos vencedores da noite. Nenhum jovem rapper apontou o dedo na cara de um dinossauro do rock e afirmou presunçosamente: minha música é melhor que a sua!

Houve uma época da História em que a liberdade musical inexistia, porém, não vivemos mais nas trevas sonoras da era em que coralistas gregorianos perseguiam compositores de cantos pagãos com tochas acesas. A liberdade de escolha musical permite que o pai ouça ópera no rádio do carro enquanto seu filho no banco de trás escuta hip hop no iPod. Então por que minha timeline do Facebook está lotada de posts sobre como “rock é melhor que axé”, ou justificativas de porquê tal cantor e tal banda são indignos de representar um gênero musical, ou “quem ouve pagode é piriguete”? Por que as pessoas não podem simplesmente colocar seus fones de ouvido e, ao se depararem com playlists que lhes desagradam, comentar simplesmente: “não curto”?
Um argumento que considero válido (talvez o único) é o de que não se respeita o espaço do outro na sociedade atual. Essa é uma realidade inegável em vários contextos, da política à sáude, passando, claro, pelo entretenimento. Na prática, ouvintes de música clássica são obrigados a escutarem música popular em volume excessivamente alto em vias e transportes públicos (ou até mesmo na própria residência se você for vizinho de um bar). O incômodo auditivo leva à intolerância e ao desrespeito dos fãs de determinado estilo. Somados, logicamente, ao sentimento egocêntrico de ter como dever a educação musical dos que estão à sua volta: o chamado “vou te ensinar a escutar música boa” (em que boa significa a ouvida pelo pronunciador da oração).
Descobri aqui que algumas cidades já proibiram o uso de aparelhos eletrônicos com música em transportes públicos, o que facilita e muito a convivência entre as tribos. Uma campanha bem-humorada e que resgata a cidadania de forma simples. Agora só falta uma lei que promova a empatia musical entre as pessoas. Porque ouvinte de sertanejo não é caipira, de forró não é brega, de funk não é bandido, de ópera não é antiquado, de reggae não é drogado, de rock não é violento, e por aí vai. São apenas pessoas ouvindo música. A música deveria tornar este mundo um lugar melhor, não pior.
